Não há coincidências, há propósitos.
- integralizablog
- 20 de dez. de 2025
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Era uma sexta-feira. Acordei depois de poucas horas de sono e fui para a aula do rodízio de habilidades. A professora Suely logo se encarregou de realocar os pacientes entre as duplas para que iniciássemos os atendimentos do dia. Eu e minha dupla nos dividimos: eu com a anamnese, ela com o exame físico. Mas surgiu o que achávamos que era um empecilho: o prontuário do paciente sumiu. Toda a história daquele senhor, que era atendido naquela UBS há algum tempo, estava perdida. No final das contas, achamos melhor refazer toda a anamnese em um novo prontuário, na esperança de encontrar o antigo depois. Mal sabia eu que precisava escutar toda aquela história. O idoso, com seus 64 anos, era hipertenso e apresentava picos de pressão ao longo do dia, ainda que fizesse uso regular de anti-hipertensivo.
Apresentava queixa de uma “agonia” na cabeça, justamente em momentos de aumento da pressão. Durante a coleta da história, ele me relatou morar sozinho. Já tinha sido casado, mas há alguns anos se separou e não possui filhos. Uma irmã é a responsável por apoiá-lo quando necessário, e era justamente ela que o acompanhava no momento da consulta. Quando questionado sobre sua religião, afirmou ser evangélico e ir praticamente todos os dias à igreja.
Durante toda a consulta, o paciente mostrava-se inquieto, como se algo o incomodasse. Questionei-o sobre o sono, e ele afirmou ter dificuldades para dormir. Ademais, não conseguia delimitar o que era, e não tive a maturidade de questionar o que o afligia a ponto de tirar seu sono. Chamei a professora Suely para apresentar o caso e discutirmos a conduta. Enquanto afirmava tê-lo achado um pouco ansioso, a acompanhante me interrompeu e disse algo muito importante: “ele fica ansioso assim porque não tem uma companheira”.
Nesse momento, eu senti que tudo naquela consulta mudava. Não consegui elucidar realmente o que estava acontecendo ali. Em seguida, o paciente nos contou que sentia a falta de uma esposa, mas, por ser muito fiel à sua religião, não poderia ficar com qualquer uma; precisava esperar a pessoa que Deus enviaria para sua vida. Só que isso requer tempo e paciência, e essa espera o tornava ansioso. Talvez tivéssemos encontrado a origem daquela pressão arterial descontrolada. Mas o mais interessante desse momento é que aquele senhor, muito mais velho que eu, refletia uma realidade que eu também estava vivendo: a ansiedade. Ela que nos aprisiona em um futuro e nos furta o presente. Eu, que há dias não dormia bem, não comia adequadamente e estava tão carregada emocionalmente, me vi naquele senhor. Logo, a professora fez a pergunta: “Você crê em Deus?”. Ele respondeu: “Sim, doutora, creio e sei que ele faz o que é melhor pra gente, mesmo que a gente não entenda”. A professora disse: “ainda bem que o senhor já entendeu o que é mais importante”. A partir desse ponto, tudo que ela falou caiu como uma luva para mim. Eu me tornei também a paciente. Ela continuou falando que esse ser superior, seja lá o que for que a gente creia, prepara o melhor para nós. Não temos motivos para ficarmos ansiosos, porque ELE cuida de tudo. Basta a gente pedir que a vontade dele seja igual à nossa, mas, se não for, nos resta aceitar e entender que o universo só traz para a gente o que é para ser nosso.
Eu, que estava em um momento de decisão muito importante na minha vida, ao escutar essa frase: “o universo só traz para a gente o que é para ser nosso”, enchi meus olhos de lágrimas. Lembrei de como aquela ansiedade estava me sufocando, tirando a minha paz, assim como a do meu paciente. Finalizamos o atendimento. Enquanto redigia a anamnese, revivi aquele momento e aquelas palavras várias vezes na minha mente. Eu, que não acredito em coincidências, compreendi que Deus queria que aquele prontuário não fosse encontrado, que eu precisasse refazer aquela anamnese completa, ser inserida naquela história para, no final, escutar o que eu também precisava ouvir. Voltei para casa com uma visão diferente da minha ansiedade e com a certeza de que ela não podia me controlar; eu é que precisava controlá-la. Sou muito grata a esse momento, a esse atendimento e a esse paciente. Afinal, eu que devia estar ali para ouvir, mesmo sem falar nada, fui contemplada.
NARRATIVA: ISABELLE MELANIE OLIVEIRA SILVA
CORRECAO: JOSE INAILSON RODRIGUES DOS SANTOS


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